quinta-feira, 22 de outubro de 2015
Síria – Patrimônio da Humanidade
Nassib Abage cumprimenta o presidente Bashar Al Assad durante visita a Damasco
A Humanidade chora a perda de algumas de suas riquezas maiores.
Por Nassib Abage
Pela primeira vez em minha vida tomei coragem de abrir meu coração para fazer um desabafo pela imensa tristeza que sinto de estarmos a perder uma das maiores lembranças que trago no arquivo da minha memória, entre tantas outras experiências que tive nas minhas andanças pelo mundo.
E tomo consciência de que os interesses econômicos tornam a responsabilidade dos homens um fracasso ao se entregarem a qualquer preço, para a conquista de valores e grandes riquezas, seja por intermédio de seitas religiosas, ambições políticas ou questões sócio econômicas, no intuito de fortalecer a sua economia através da criminosa indústria bélica que não mede esforços e nem consequências para a destruição de seus semelhantes e a história da humanidade.
Por isso trago à tona a grande revolta do meu coração que fala mais alto do que a minha própria consciência, gritando por socorro aos quatro cantos do mundo para que não deixem continuar a destruição de tudo aquilo que foi construído por criaturas certamente especiais por tantos e tantos séculos.
A história da humanidade não pertence a um só país mas sim ao mundo, pois é ela a nossa própria história.
Felizes aqueles que tem um linda história de respeito, dignidade e amor ao próximo para contar.
Quero então deixar aqui registrada a minha grande satisfação com relação a experiência que tive em uma das minhas sete passagens por Palmira quando me hospedara no Hotel Zenobia Cham Palace. Ali conheci um pouco mais da história daquela cidade e das vidas que por lá passaram. Ocupei naquele hotel um apartamento próximo ao que ficara hospedada a grande escritora Ágatha Christie, que ao contrair matrimonio em segundas núpcias com o arqueólogo inglês Max Mallowan, com ele combinou de passarem a sua lua de mel naquele fantástico sítio arqueológico.
Em lá chegando, a escritora levada por um arrebatamento, assim exclamou com toda a intensidade do seu coração: “aqui realmente moram os deuses”.
A última vez que visitei a Síria em outubro de 2011, a convite da Embaixada da Síria no Brasil, para lá fui representando meu irmão Cônsul Honorário da República Árabe da Síria nos Estados do Paraná e Santa Catariana, que estava impedido no momento de realizar aquela viagem. O referido convite tinha por objetivo reunir um número de pessoas representativas da comunidade síria no Brasil, para levar uma mensagem de apoio ao eminente Presidente Bashar Al Assad, e com ele dialogar sobre a situação da guerra de invasão em que se encontra a Síria e que havia começado em março daquele ano.
Após esse contato pessoal com o Presidente, que deixou a todos encantados com o seu carisma e sua personalidade, convenci-me da má fé dos meios de comunicação que procuram projetá-lo como um Ditador, mas que na realidade é sem dúvida um dos grandes líderes mundiais que ama seu país e seu povo.
Após a reunião documentamos a visita com fotos e filmes realizados com o presidente.
A Síria, é um dos lugares onde existia o maior equilíbrio sócio econômico do mundo, onde o grau de analfabetismo era praticamente zero, um país onde o seu Presidente tinha uma única preocupação: promover o bem estar e a educação de seu povo.
Então a Síria começa a sofrer as consequências da invasão de guerrilheiros mercenários, que para defender interesses escusos, passam a destruir sem piedade o que pertence a humanidade.
Rezo em todos os momentos da vida para que Deus proteja e salve aquele país abençoado, não permitindo que pessoas que destroem e matam por dinheiro continuem a destruir aquelas maravilhas que lá foram criadas. O acervo da humanidade pertence a todos os povos do mundo, e para que não seja destruído fica sob os cuidados da UNESCO, que foi criada para zelar pela integridade e conservação desse acervo.
Por isso também em minhas orações, peço ao pai supremo que conserve a força interior do Presidente Bashar e zele pela sua saúde e a de seus familiares.
Nesta última vez que estive naquele país, resolvi alugar o carro de um motorista amigo, como sempre fazia em minhas idas para lá, para visitar algumas das cidades mais fantásticas que conheci na minha vida. Assim é que passei por Homs, Hama, Maalula, Sednaia, Lataquia, Tartus, Alepo e já quando estávamos a alguns quilômetros da cidade de Palmira fomos parados por uma barreira militar para apresentação de nossos documentos.
De imediato o meu amigo apresentou a sua carteira de motorista e a sua identidade síria. A seguir o responsável pelo posto militar solicitou os meus documentos, ao que lhe respondi que viajava como turista. Então quero ver o seu passaporte, disse-me ele, ao que lhe respondi que havia esquecido o mesmo no hotel em que me hospedara. Como é que o senhor esquece de portar o seu passaporte na situação de guerra em que o país se encontra? Imediatamente lembrei-me das fotos que fizemos na visita ao Presidente em Damasco e que eu trazia comigo em minha carteira. Então falei para o militar: mas trago comigo um documento que deve valer mais do que um passaporte, ao que o mesmo olhou-me com os olhos arregalados enquanto eu sacava as fotos da carteira. Ao constatar a veracidade do que lhe falei e após olhar as fotos, o mesmo falou-me: “beijo as mãos de quem tocou as mãos do nosso Presidente” e de fato fez uma reverência especial. Foi uma das maiores emoções que senti na minha vida, e constatei nesse momento o quanto o Presidente era amado e respeitado pelo seu povo. Como também a sua esposa, uma bela e inteligente mulher com toda a nobreza de alma e amor pela sua pátria e seu povo.
Se eu for me estender para contar as grandes experiências que tive naquele nobre país, teria que escrever um livro de mais de mil páginas, quando também contaria a história do surgimento do cristianismo que nasceu em Antioquia na Síria, com o Apóstolo Paulo ensinando as palavras do evangelho para os primeiros seguidores de Cristo que naquela cidade foram pela primeira vez chamados de cristãos.
Por coincidência é aquela cidade sagrada, a terra natal de meus pais Nassib e Bárbara, que souberam transmitir a todos os filhos o verdadeiro sentido da palavra cristão.
Espero que Deus possa enxugar minhas lágrimas de dor e de tristeza e que não permita mais que armas e bombas atômicas venham a destruir esse grande e belo universo em que vivemos.
Peço ao Pai Supremo que nos abençoe e que nos proteja sempre dos que se julgam os donos do mundo, fazendo-os entender e tomar consciência de não mais destruírem a linda história do mundo que pertence a todos nós. Que as belas imagens que trago registradas no arquivo da minha memória, ninguém jamais possa apagá-las.
Lembro muito bem quando eu e meu irmão Abdo visitamos Palmira certa vez, e fomos levados a conhecer um tumba subterrânea onde se encontravam trinta e oito múmias com seus túmulos com transparência de vidro. Tentávamos imaginar a história que cada um trazia dentro de si no lindo trajeto que percorreram pelos caminhos da vida naquela cidade extraordinária.
A porta que nos deu acesso àquela tumba pesava duas toneladas e meia em mármore com uma chave de mais de cinquenta centímetros de comprimento e sequer temos a possibilidade de imaginar a tecnologia usada para a construção daquela grande obra que está prestes a ser destruída pelos terroristas mercenários que invadiram a Síria.
Se um dia eu perder a força da minha fé, perco minhas referências com Deus, e por isso prefiro confiar que alguém ainda há de nos proteger para que possamos acreditar num melhor dia de amanhã.
Para finalizar estas simples palavras, não sei se de dor, revolta, impotência, tristeza ou mágoa, deixo registrado o meu desabafo na esperança de que consigamos todos hastear as bandeiras da paz, não dando vez e voz aos que empunham as bandeiras das guerras.

