quarta-feira, 16 de setembro de 2015

O que nos dizem gregos e gregas, e o que podemos dizer a eles


Fausto Giudice, Tlaxcala - Tradução: Vila Vudu

Que lições podemos extrair da experiência grega dos últimos oito anos?*
Ofereço, para reflexão e debate, algumas (hipó)teses que a experiência me sugere:

1. A Eurozona é uma jaula de ferro. Jaulas não se democratizam. Jaulas têm de ser destruídas.

2. O poder está com os grandes bancos alemães, franceses, ingleses e holandeses.

3. Governo nacional surgido de uma maioria parlamentar não tem margem de manobra nem qualquer poder real. Só pode aplicar o que Bruxelas, Berlim e Frankfurt o mandem aplicar.

4. Atualmente, a soberania nacional não tem sentido algum. A soberania popular sim, mas sob certas condições.

5. A única alternativa possível a esse sistema terá de ser construída de baixo para cima erga omnes (para todos), com visão ampla e sem exclusivismo ideológico.

6.Esta alternativa deve ter por objetivo satisfazer as necessidades fundamentais das pessoas, com vistas a oferecer gestão correta dos bens comuns, quer dizer, autogestão desses bens.

7. Esta alternativa pode e deve ser construída hic et nunc (aqui e agora), independentemente da politicagem tradicional, dos prazos eleitorais e das estruturas estabelecidas numa democracia representativa.

8. Só povo que tenha soberania alimentar e seja economicamente autônomo pode das as costas aos bancos e ao sistema deles, e dar sentido concreto ao seu "NÃO".

9. Os gregos e gregas não podem eleger: se quiserem dar sentido ao seu "NÃO", eles/elas têm de pôr em prática um "SIM". Sim a:

a)Um retorno à terra, plantando e cultivando para ter o que comer: “A terra para os que trabalham a terra".

b)Criação de suas próprias moedas locais, autogeridas, não bancárias, cujo curso se ajustará em função do tempo.

1DD (δημοτικη δραχμή/dracma popular) = 1 hora de vida.

c)Criação de suas próprias fontes de energia, renováveis, gratuitas, limpas.

d) Criação de suas próprias estruturas de poder popular (λαοκρατία/laocracia**) para gestão dos bens comuns e dos territórios, e das relações sociais. Uma democracia direta, horizontal, sem delegação, sem burocratização, com cargos de eleição popular designados por sorteio e revogáveis a qualquer momento.

Só se se converter em zona liberada na Europa, a Grécia poderá conseguir que a Europa incline-se na direção de uma lógica de saída da jaula de ferro.

Nem euro nem dracma! Laocracia!

* Contados a partir de 6/12/2008, data do assassinato de Alekos Grigoropoulos, em Exarchia, que iniciou ciclo prolongado de lutas, com altos e baixos.
** Laocracia: poder popular. O termo designa as estruturas que a Resistência grega pôs em funcionamento nas zonas liberadas durante a "guerra civil", de 1945 a 1948.